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Golpe Pix: existem dois bancos no caso e a maioria das vítimas só olha para um

Quando alguém sofre um golpe Pix, o primeiro reflexo é procurar o próprio banco. Ligar, pedir bloqueio, abrir protocolo, cobrar resposta. Isso está correto. Mas existe um ponto que quase ninguém considera nesse momento: o dinheiro não desapareceu. Ele foi parar em uma conta. E essa conta pertence a uma instituição financeira que também tem obrigações.

A grande maioria das vítimas conduz o caso olhando apenas para o banco de onde o dinheiro saiu. É natural, porque foi ali que o prejuízo apareceu. Mas a transação Pix envolve duas pontas. E a análise técnica de um caso de fraude precisa considerar as duas.

O banco que recebeu o Pix também tem responsabilidade?

Toda instituição financeira que abre e mantém contas tem obrigações relacionadas à verificação de identidade, monitoramento de movimentações e prevenção de fraudes. Essas obrigações não são genéricas. Elas estão previstas em normas do Banco Central e fazem parte do que se espera de qualquer instituição autorizada a operar no sistema financeiro.

Quando uma conta é usada para receber valores de fraude, uma das perguntas que podem ser feitas é: como essa conta foi aberta? Quais verificações foram realizadas? A movimentação dessa conta era compatível com o perfil declarado?

Isso não significa que toda conta usada em golpe foi aberta de forma irregular. Mas quando há indícios de falha na verificação de documentos, abertura com dados falsos ou ausência de monitoramento de padrões atípicos, existe um fundamento técnico para discutir a responsabilidade da instituição que manteve essa conta ativa.

O que a jurisprudência diz sobre isso

A Súmula 479 do Superior Tribunal de Justiça estabelece que as instituições financeiras respondem objetivamente pelos danos gerados por fortuito interno relativo a fraudes e delitos praticados por terceiros no âmbito de operações bancárias.

Esse entendimento se aplica às instituições de forma ampla. Não está restrito ao banco da vítima. Se a instituição que recebeu os valores manteve uma conta aberta em condições que facilitaram a fraude, essa circunstância pode ser relevante na construção do caso.

É importante deixar claro: a existência da Súmula não garante resultado em nenhum caso isolado. O que ela faz é estabelecer uma base para a discussão. Cada situação precisa ser avaliada individualmente, considerando a documentação, o contexto da fraude e a conduta de todas as partes envolvidas.

Por que a maioria das vítimas nunca pensa nisso

Porque o instinto é resolver com quem está mais perto. A vítima é correntista do banco A, então procura o banco A. O banco A analisa, muitas vezes nega, e a vítima aceita ou recorre. O banco B (que recebeu o valor) sequer aparece na conversa.

Esse é um ponto que só costuma ser levantado quando existe análise técnica do caso. A vítima, sozinha, não tem como saber em que condições a conta de destino foi aberta, nem como identificar se houve falha na ponta que recebeu. Essa verificação depende de acesso a informações que só aparecem dentro do procedimento adequado.

E é justamente por isso que muitos casos são conduzidos de forma incompleta. Não por negligência da vítima, mas porque a visão do problema ficou restrita a apenas uma parte da operação.

O que muda quando os dois bancos entram na análise

Quando a análise técnica considera os dois lados da transação, o caso ganha uma dimensão diferente. Não necessariamente mais simples, mas mais completa.

Em vez de uma discussão limitada a “o banco da vítima deveria ter impedido a transferência?”, entra também a pergunta: “o banco do destinatário deveria ter identificado que aquela conta estava sendo usada para receber valores de fraude?”

Essa segunda pergunta abre possibilidades que não existem quando o caso fica restrito a uma só instituição. E, dependendo do que a análise revelar, pode alterar significativamente a estratégia de condução.

Nenhum desses caminhos é automático. Todos dependem de avaliação profissional, da qualidade das provas e do contexto específico de cada fraude. Mas ignorar a segunda ponta da transação é, na grande maioria dos casos, deixar um elemento relevante de fora.

Conclusão

Se você foi vítima de um golpe Pix, a tendência natural é concentrar toda a atenção no banco de onde o dinheiro saiu. Mas a transação não aconteceu em uma só direção. O dinheiro foi recebido por alguém, em algum lugar, por meio de uma conta que foi aberta e mantida por uma instituição financeira.

Considerar os dois lados da operação não garante resultado. Mas conduzir o caso olhando apenas para um lado pode significar deixar de fora um elemento que faria diferença na análise.

Casos de fraude bancária têm nuances que não aparecem na superfície. E a condução adequada desde o início é o que permite enxergar o cenário completo.

Assista ao vídeo sobre este tema

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